6 de fevereiro de 2014

Sobre a praxe

Há uma semana que cada vez que abro o facebook há mais um post sobre a praxe e gente contra e gente a favor. Honestamente, acho a praxe uma coisa sem sentido nenhum, mas respeito quem gosta. Desde que essas pessoas respeitem também um "não" quando o ouvem.
Em 2011, antes de saber que tinha entrado no Lee Strasberg, estive algum tempo na FCSH. No primeiro dia de aulas o professor da manhã faltou e vieram-nos buscar para sermos praxados. Eu já tinha decidido há muito tempo que não queria participar e quando o disse, a resposta foi qualquer coisa como "mas porquê? Não podes dizer que não sem experimentares. Todos os teus colegas vão, queres ficar aqui sozinha?" e sem eu ter ainda respondido já tinha um baton a pintar-me a cara. Acabei por aceitar ficar para ver como era e o primeiro jogo até foi giro. Depois começou a história das pinturas, dos vernizes, do "caloira não responde" ou "caloira não olha nos olhos". Pois, não ocorreu. Primeiro que tudo, porque não aceito que ninguém decida quando respondo e para onde é que olho. Segundo, porque a teoria do sou-mais-velho-portanto-mando-mais nunca me coube na cabeça. Claro que a meio do dia já tinha milhares de castigos em cima (todos envolviam decorar coisas, tipo o código da praxe e o hino não sei do quê), que nunca tencionei cumprir, porque já tinha decidido que era a primeira e a última vez que me apanhavam naquilo. E quando ouvi alguém dizer "agora atamos-lhes latas aos pés e vamos a pé até ao Chiado, não é?" decidi que estava na minha hora e informei que me ia embora, mas não sei antes ouvir uma tentativa de descompostura (aos berros claro, para mostrar bem o seu poder) de alguém que usava como argumento "tenho sete matrículas, sou a pessoa com mais matrículas daqui portanto tens que me obedecer", o que me deu uma vontade enorme de rir e virar as costas. Entretanto soube que tinha entrado no Lee Strasberg, onde nunca houve nem haverá nada que se pareça a uma praxe e nunca me senti menos integrada por isso, nem demorei mais tempo a fazer amigos. Tal como duas das minhas melhores amigas, a Ana e a Catarina, cujos cursos não têm praxes e não me parece que sejam pessoas menos felizes e com menos amigos por isso.
Acho que cada um deve escolher o que quer para si, mas é fundamental que essa escolha seja respeitada (e eu já assisti a muitas faltas de respeito). Mas se é para praxar que se façam coisas giras, como jantaradas, noites no Bairro Alto ou coisas úteis como istoisto ou isto. Mas por amor de Deus, poupem-me a vergonha alheia de ver bandos de gente pintada a gritar músicas ordinárias enquanto descem a Rua do Carmo.

22 comentários:

  1. Concordo com tudo o que escreveste. Também não fui praxada e fui trajada a missa de finalistas, apesar de dizerem que não podia trajar sem ser praxada. Coisa que nunca percebi.

    Não acho piada nenhuma as praxes, na minha universidade mandasvasm os caloiros ficarem de cocoras a chuva????

    Não percebo que forma de integração é esta...

    ResponderEliminar
  2. Sou de acordo. Ja agora entraste para que na FCSH?

    ResponderEliminar
  3. Já fiz a faculdade, nunca quis ser praxada e nunca aceitaria que um(a) colega que me tivesse falado aos gritos ou dado ordens. É uma questão de atitude!

    Infelizmente, há muita gente que se deixa humilhar e ainda tira prazer nisso! Portugal é tão mal frequentado...

    ResponderEliminar
  4. dos melhores textos que já li sobre isso.

    ResponderEliminar
  5. Olá, gosto bastante do teu ponto de vista acerca deste assunto, e concordo com ele. Já agora podias escrever um texto a falar da tua experiência na Lee Strasberg, como foi que entraste (as audições e tudo isso), como foi conhecer pessoas novas nessas escolas, de onde surgiu a vontade de estudar em NY :)

    ResponderEliminar
  6. Não concordo mas tbm não critico
    Mas deixo aqui o meu testemunho como pessoa praxante
    Eu acho a praxe uma fase da vida académica, aquela fase que ninguém esquece e toda a gente aprende. Na minha agrária a união o espírito agrário é algo que não tem palavras para o descrever. Não vou estar aqui a prolongar um tema que sinceramente... nunca vai ter um fim...
    Mas sei que aprendi a nao desistir, sei apenas que há coisas que os livros não ensinam...
    Mas volto a dizer respeito opinioes contrárias as minhas

    ResponderEliminar
  7. Maria acho que a praxe já entrou naquele círculo de coisas que não se fala para não haver chatice - Religião, Política e Futebol ahah.

    Fui praxada numa faculdade onde tive exactamente a mesma reacção que tu descreves, fui o primeiro dia e não pus lá mais os pés, e fui praxada (e praxei) no ISCSP e foi uma fase giríssima, com coisas divertidas e que permitiam mesmo fazer amigos! E fiquei muito contente por partilhares a Praxe Solidária que o ISCSP fez, porque são esses bons exemplos que quem não gosta de praxe não consegue ver e é importante saberem que a praxe também pode ser útil.

    ResponderEliminar
  8. Mais que qualquer coisa, e corroborando a tua opinião em suma, a praxe é e deve ser sempre uma escolha. Há quem se identifique com essa tradição e há quem não. Em qualquer caso, deve ser sempre respeitada. Não sou radicalmente contra a praxe, mas para mim não faz o sentido que tantos lhe dão. Fui praxada, com respeito, não houve abusos e nestes termos não vejo mal em que a praxe continue a ser aplicada. É realmente uma forma particular de proporcionar divertimento e integração. Mas, obviamente, não é a única. Mudei de curso e não quis ser praxada pela segunda vez, simplesmente porque não me identifico. Disse não, foi perfeitamente aceite e não deixei de fazer amigos, conhecer muita gente, ir a jantares e festas e aproveitar a experiência universitária. A ideia que quero transmitir é que há e deve haver sempre opção e há que respeitá-la. O meu caso foi um bom exemplo pelos dois lados. E aqui entra a segunda parte da minha ideia, não devem ser feitas generalizações, não há apenas um lado mau nem um lado bom. Há penas quem saiba manter a praxe com a sua função original e quem não. Não é difícil perceber onde está o erro.
    Maria, é verdadeiramente bom viver em Nova Iorque? :)

    ResponderEliminar
  9. No ano em que entraste na FCSH e em História da Arte essa pessoa das sete matrículas fui eu própria que a expulsei da praxe. Soube mais tarde que ela cometeu vários abusos. E à conta deste teu testemunho vou falar com quem praxa atualmente em HA e para isso do ficares sozinha e pintarem sem teres tempo de resposta não voltar a acontecer.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A sério? Fico contente de saber que ela já está fora, foi incrivelmente bruta com toda a gente.
      Já não me lembro quem me fez isso de não dar tempo de resposta, mas lembro-me que havia uma Margarida e uma Ana Filipa que foram amorosas comigo o dia todo. Espero que continuem a fazer aquele jogo de dar uma obra de arte a cada um e terem que a descrever, que isso sim, foi muito giro!

      Eliminar
    2. Sim. Tratei logo do assunto com ela e não voltou a praxar. Não me lembro de nenhuma Margarida mas a Ana Filipa deve ser a afilhada do meu namorado. Digo-te que o curso de História da Arte da FCSH perdeu uma grande aluna, de certeza :-) Ah e esse jogo fui eu própria que inventei no meu primeiro ano de praxe tal como o hino do curso. E essa história dos castigos senão soubessem esta ou aquela música é só fogo de vista ;)

      Eliminar
    3. Ahah tenho alguma pena de não ter ficado no curso porque amo História de Arte, mas tive uma aula com a Limão que chegou perto da tortura :p agora vou aproveitar e fazer um ou dois cursos de Arte Moderna no MoMA :)
      Ahh foste tu que inventaste o jogo?? Isso foi a melhor ideia de sempre, o jogo era mesmo muito muito giro, apesar de me ter calhado a única obra que eu não conhecia (o Bom Pastor). Parabéns pela ideia!!! Quanto ao hino ainda me lembro de quase todo!
      O teu namorado é o Fábio?

      Eliminar
    4. Tu és uma sortuda por estar em Nova Iorque. Quem me dera. Sim é. Ainda chegaste a conhecê-lo?

      Eliminar
  10. Ah e a Limão é o terror. Mas eu ainda consegui apanhar professores de antiguidade bem piores que ela. Aquele tom monocórdico, sabes? Do melhor.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Então é mesmo essa Ana Filipa! Ahah conheci sim, ele não gostou nada de mim porque eu lhe respondia e olhava nos olhos :p mas nunca foi nem bruto nem mal educado nem nada disso.
      Pior que a Limão deve ter sido de cortar os pulsos... Acabaste o curso quando?

      Eliminar
    2. Por isso é que eu te digo que em HA é só fogo de vista. Ao fim da semana já somos todos amigos e n há diferença entre caloiro e veterano. Acabei o ano passado. Tive que parar 1 ano e 1 semestre, não tudo seguido. Parti os dois tornozelos num espaço de dois anos.

      Eliminar
    3. Estava. Mas eu só praxei um ano a sério. De resto ficava de lado só a observar. Já n tinha paciência :-)

      Eliminar
    4. Então ainda nos devemos ter cruzado por lá! :)

      Eliminar
    5. É capaz. Mas eu n sou muito boa com caras. Mas pronto, isto só prova o quão o mundo é pequeno :)

      Eliminar