4 de janeiro de 2013

Sobre o artigo da Sábado

Saiu ontem a nossa reportagem na Sábado que, para o bem ou para o mal, é a primeira reportagem sobre qualquer um de nós. Adorámos e agradecemos esta oportunidade, mas há duas ou três coisas que merecem ser apontadas e esclarecidas, especialmente depois de um comentário que recebi aqui no blog e que diz "Li a vossa entrevista na Sábado e penso que o jornalista tentou descridibilizar-vos muito. O comentário de não entenderem nada de cinema europeu, o facto de fazer uma novela não ser significativo, dito com algum desdenho, como se isso fosse algo de irrelevante para a carreira ou que só os artistas menores fazem, o apontamento às rendas das casas... Ele fez uma crítica discreta ao vosso poder económico em que qualquer um pode fazer o mesmo, basta ter dinheiro, porque quem paga passa, simples. Pelo que leio aqui simpatizo muito contigo, mas penso que não vos fizeram jus minimamentee no vosso lugar não teria gostado do que escreveram."
É verdade que há várias coisas que podem ser mal interpretadas por quem não nos conhece. Posto isto, aqui ficam os pontos com os quais não estou de acordo, devidamente esclarecidos:
1) "(...) 25 mil euros de propinas. Não há notas no final das cadeiras e ninguem chumba" - é verdade que não há notas e que não se chumba, mas tambem é verdade que este curso não é um curso universitário normal. É um curso intensivo de 18 meses em que não temos tempo nem energia para muito mais do que as aulas, ensaios, monologos, cenas, apresentacoes. É incrivelmente desgastante. Não há notas e não se chumba por uma simples razao: eles não estão ali para nos avaliar, estão ali para nos dar todo o conhecimento e técnica que podem - ou fazemos valer o nosso dinheiro e aproveitamos ao máximo ou ficamos a ver passar as moscas e o problema é nosso.
2) "Querem ser actores famosos, adoram ver filmes mas não percebem muito da história da profissão. Cinema mais antigo e europeu é para esquecer e sobre os trabalhos que se fazem em Portugal sabem zero" - não sei sobre quem é este parágrafo, mas sobre mim não é. Adoro cinema mais antigo - olhando de relance para a minha estante em Portugal, tenho ali o Casablanca, o Gone With The Wind, todos os filmes da Marilyn Monroe, todos os filmes da Audrey Hepburn, o Há Lodo no Cais, o Cat On a Hot Tin Roof e o Who's Afraid of Virginia Woolf com a Elizabeth Taylor, o Birds, o Vertigo e o Psycho do Hitchcock. E, ironicamente, o cinema de que mais gosto é europeu - o meu realizador preferido de sempr é o Lars Von Trier (Dinamarquês), adoro Almodóvar (Espanhol), adoro o Bergman (Sueco), gosto muito de dois filmes da Sally Potter (Inglesa), gosto de alguns do Godard (Francês) e vi muitos filmes europeus muito bons nas várias edições do Indie Lisboa a que fui. Quanto ao cinema português, é verdade que não sou espectadora assídua, mas há muitas coisas de que gosto. Há muitas curtas que fui vendo no Indie, no Doclisboa e no New York Portuguese Short Film Festival de que gostei muito, ainda não consegui mas quero muito ver o Tabu do Miguel Gomes, gosto do Manhã Submersa do Lauro António, adorei o Amália e quem me tira os filmes portugueses antigos (especialmente A Menina da Rádio) tira-me tudo.
3) Sobre a ideia com que muita gente ficou de que entrar no Strasberg é facílimo e que basta ter dinheiro, as coisas não são bem assim. É verdade que não é muito difícil, mas não é uma brincadeira. Entrar é fácil, ficar não. É preciso ter estofo emocional e muita determinação para fazer o programa de dois anos, que estamos todos a fazer. Não é uma brincadeira, não estamos ali a passar o tempo. É dificil, é puxado, é desgastante, é exaustivo e é também o melhor treino que podiamos ter.

Quem me conhece sabe que parte do que foi escrito na Sabado não se aplica a mim e pelos vistos alguns de vocês também, mas queria deixar isto esclarecido. Porque isto sim, sou eu.


P.S.: a minha mãe e o meu padrasto não se divorciaram, estiveram separados dois meses.

8 comentários:

  1. Lars Von Trier é por norma um realizador tecnicamente irrepreensível. A nível fotográfico, som e direcção de actores é soberbo, porém os seus argumentos são sempre repugnantes e misóginos. Dos filmes de Von Trier, por norma a mensagem que fica, é que as mulheres são moralmente mais débeis, mais perversas, mais dementes e que a raiz do mal reside e/ou tem o seu princípio no universo feminino - misoginia básica. No entanto, não ponho em causa o prodígio técnico de Lars von Trier, pelo contrário, sou da opinião que o dinamarquês é um dos que melhor domina a técnica cinematográfica mas enquanto mulher não consigo evitar repulsa pelo homem, não pelo realizador.
    Beijoca
    Joana Correia

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  2. Acho que é de louvar todo o teu esforço,empenho e dedicação ás arte da representação. Sou apenas uma adolescente, que tal como tu, tem o sonho de um dia representar e ser reconhecida por isso. Sei do trabalho que envolve, porque é tudo muito bonito em palco, mas as pessoas não sabem as horas que demora a preparar tudo!
    Força aí Maria!!!!teremos orgulho em ti (e em todos os actores Portugueses que lutam!).

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  3. Li o artigo e realmente quem lê fica com uma ideia de que quem tem dinheiro é fácil, quem não tem... Mas de qualquer forma parabéns :) Gosto muito do teu blog continua ;)

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  4. Maria conheces o Billy Wilder? é o meu realizador preferido de sempre (depois vêm o Hitchcock e o Capra) - já viste com certeza o Some Like it Hot dele, mas aconselho vivamente o Sunset Boulevard que é excelente. sou doida por cinema antigo, aliás é quase o único cinema que vejo. e amo a Audrey Hepburn de paixão (e o Marlon Brando, e o James Stewart, e a Vivien Leigh, e a Ingrid Bergman, e o Laurence Olivier...)

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  5. Admiro as vossas vontades em se colocarem na linha de fogo e investirem numa profissão (ou estilo de vida) como a representação. A única coisa que posso fazer é desejar-vos realismo e sucesso no percurso e força, muita força, que esse caminho que escolheram não é de todo para os fracos de estômago e de espírito. Quanto às reacções ao artigo, apenas é um reflexo da maioria da opinião pública nacional sobre as profissões artísticas.

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  6. Será que dá para digitalizarem o artigo e meterem aqui??

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  7. Escreve-se espectadora e não " Expectadora".

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  8. Olá Maria. Também li o artigo e se não te conhecesse daqui, a reportagem não me tinha deixado nada bem impressionada.
    Acho, honestamente, que quem vos fez a entrevista/reportagem teve muita má fé. Aquilo é uma reportagem "assassina". Faz-vos parecer uns meninos ricos, com um capricho pelas "artes, mas patêgos e acima tudo ignorantes!
    Aquela reportagem foi um presente muito envenenado, acredita!

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